Foi no coração de Penedès, a região vitivinícola espanhola afamada por produzir os vinhos espumosos designados por “Cavas”, mais concretamente em Sant Martí Sarroca, que nasceu Ferrán Lacruz, no seio de uma família humilde que trabalhava a terra. Quando chegou a altura de iniciar os estudos universitários, o jovem Ferrán escolheu o curso de Turismo, fundamentalmente com o objectivo de aprender línguas estrangeiras, pois estava convencido que com essa vantagem poder-se-ia precaver contra um futuro incerto. O estágio final do curso foi realizado numa adega, consistindo em apresentar vinhos e explicar os processos inerentes à sua produção a turistas estrangeiros, mas foi nessa altura que começou a pensar que, mais do que tecer explicações em torno de um vinho alheio, o ideal seria ele mesmo fazer o seu vinho. Assim, mal terminou o curso de Turismo, inscreveu-se num curso superior de enologia.
Ao estudar os vários aspectos relativos ao vinho, para além dos conhecimentos científicos que adquiriu, Ferrán começou a sistematizar um conjunto de ideias próprias sobre como produzir vinho, particularmente sobre o que um vinho deve transmitir a quem o degusta. Por conseguinte, na fase final dos seus estudos de enologia, conseguiu convencer alguns agricultores mais idosos a deixá-lo trabalhar os seus vinhedos, localizados nas proximidades da sua aldeia natal. Como seria de esperar, apenas uma minoria de agricultores conseguiu superar o cepticismo e deixar‑se seduzir pelas explicações e técnicas de trabalho das vinhas do jovem idealista.
Terminado o curso de enologia numa sexta-feira de 2018, Ferrán começou a trabalhar na segunda‑feira seguinte, iniciando uma experiência fora do padrão da região, quase na clandestinidade, e assim nasceu a Bodega Clandestina. O princípio que o norteia é o de produzir um vinho único, ou seja, um vinho que ateste fidelidade à terra onde crescem as vinhas, um vinho limpo, porém sem defeitos, pois um vinho com defeito, qualquer que ele seja, desvirtua a região de onde provém. Ferrán está plenamente consciente que os conhecimentos adquiridos no curso de enologia fazem muito sentido – por exemplo, almeja sempre vinhos com pH baixo, a fim de conferir uma maior protecção microbiana ao vinho –, mas também afirma, com uma simplicidade admirável, que “fui à universidade para aprender, agora trabalho para desaprender”. Todos os seus vinhos são engarrafados sem colagem, filtração ou acréscimo de sulfitos.